Covid na Rússia. Dom Pezzi: contágio da oração mais forte do que o vírus

Deixar-se envolver pelo irmão que está ao nosso lado, confiar-se mais às mãos de Deus e concentrar-se no que é verdadeiramente valioso, deixando de lado aquele tipo de ativismo que também diz respeito à Igreja e que corre o risco de nos deixar na superfície das coisas. É assim que dom Paolo Pezzi, arcebispo de Moscou, fala da sua experiência como paciente da Covid, como pastor e como guia da comunidade católica na Rússia. Conosco, comenta as três chaves de leitura do Advento que o Papa deu aos fiéis no Angelus de domingo 29 de novembro: sobriedade, proximidade e oração na família.

“Maior sobriedade, atenção discreta e respeitosa aos vizinhos que possam estar em necessidade, alguns momentos de oração feitos em família com simplicidade. Estas três coisas vão ajudar-nos muito“( Papa Francisco)”.

As palavras do prelado estão também ligadas ao que países como a Belarus, Ucrânia e Cáucaso estão vivendo: para eles, o apelo de dom Pezzi é à caridade, ao perdão e à paz. Todas as noites, a partir das comunidades católicas de toda a Rússia – diz-nos – eleva-se uma oração especial, a do Sub Tuum Praesidium, recitada por todos depois da Comunhão precisamente para obter a proteção e o dom da paz para o povo da Belarus de onde, diz, “as notícias que chegam não são positivas”. A entrevista com dom Paolo Pezzi:

A Rússia é o quarto país do mundo pelo número de contágios da Covid -19, mais de 2,5 milhões com quase 45 mil mortes. Entre as áreas mais afetadas encontra-se São Petersburgo, enquanto a situação está melhorando gradualmente na Sibéria e na região do Cáucaso. Mas a Rússia foi também a primeira a testar a vacina. Qual é a situação no país hoje?

R. – Eu diria que a situação é de uma relativamente ampla difusão da Covid e que o número de mortes está diminuindo em comparação com apenas três ou quatro dias atrás, quando tínhamos picos recordes. Onde a situação é mais grave, como em São Petersburgo, as autoridades locais estão considerando um possível lockdown regional. Entretanto, a distribuição da vacina também já começou. Existe alguma controvérsia sobre a eficácia da vacina e sobre a obrigatoriedade para algumas das categorias de maior risco, tais como o pessoal de saúde e os militares. Até o momento, contudo, não há relatos de efeitos colaterais negativos.

Qual é o seu empenho como Igreja no acompanhamento da população neste momento difícil?

R. – O que fazemos é tentar ser os primeiros a ter toda a atenção necessária, portanto, divulgar da melhor maniera aos nossos fiéis as informações dadas pelo Estado e pelas administrações locais e, por último, o que tentamos fazer é cuidar dos doentes. Se não for possível ir aos hospitais devido às medidas de segurança, podemos fazê-lo nas casas para os fiéis católicos que nos chamam seja para receber o apoio dos sacramentos seja para a possibilidade de recitarmos juntos uma oração. Finalmente, outra coisa que retomámos são as celebrações e encontros de formação através da Internet.

O senhor pessoalmente viveu a experiência da doença. O que é lhe deixou e o que pode dizer às muitas pessoas doentes no mundo que também enfrentam o medo neste momento?

R. – A forma do vírus que me atingiu, graças a Deus, não foi tão violenta. O pior efeito foi a perda do gosto e do olfato que dá a sensação de um distanciamento da realidade, e depois um estado de fraqueza física, mas acima de tudo neurológica. O que eu aprendi? Devo dizer que aprendi muito. Antes de mais nada, aprendi que precisamos pedir conscientemente a nossa conversão todos os dias, porque não podemos dar por garantido que aquilo que estamos vivendo é a melhor maneira de viver. Em segundo lugar, o tempo que pude dedicar à reflexão, estudo e oração fez-me compreender que nós padres e bispos muitas vezes corremos o risco de cair numa espécie de ativismo que nos deixa muito na superfície das coisas, e especialmente das relações. Desta vez, portanto, despertou em mim um maior desejo de me envolver nas relações com as pessoas e especialmente com os mais necessitados. Depois, você me perguntou sobre o medo: o medo é certamente um aspecto endêmico e está inscrito no DNA de todos. Assim, o que digo aos meus fiéis é que a proximidade que podemos oferecer faz com que nos confiemos mais às mãos de Deus, faz com que tomemos mais consciência de que fomos feitos para a felicidade, não fomos feitos para passar uma certa quantidade de tempo nesta terra e basta. Em vez disso, fomos feitos para passar este tempo com a perspectiva da pátria celestial que nos espera. Por esta razão tomei a iniciativa, durante o tempo de lockdown, de difundir todas as noites um breve pensamento com uma bênção precisamente para ajudar a vencer o medo, algo que tenho continuado a fazer e agora faço-o todos os domingos à noite.

Ou seja, um pensamento para que nos sintamos sustentados na fé que nos dá força?

R. – Sim, uma vez que não podemos evitar o medo, precisamos voltar o nosso olhar, e aqui voltamos ao conceito de conversão, que nos permite vencer este medo.

Vamos falar do Advento que estamos vivendo. Na vontade do Papa, expressa no Angelus do primeiro Domingo de Advento, três aspectos ajudam-nos: sobriedade, olhar para aqueles que nos são próximos, e oração em família. Esta mensagem já chegou até vocês? E como estão se preparando para o Natal?

R. – Sim, a mensagem chegou até nós e estamos avançando nesta direção. Sobriedade: ajuda-nos a compreender que a sobriedade não é menos, mas é a possibilidade de nos concentrarmos no mais, ou seja, de nos concentrarmos na verdadeira espera de Cristo. A proximidade: não se espera realmente por Cristo se não estivermos dispostos a olhar uns para os outros de uma forma diferente, e este é provavelmente o caso em todo o mundo, mas sentimo-lo de uma forma particular devido aos conflitos nos países próximos da Rússia e especialmente na Belarus, no Cáucaso e, não esqueçamos, na Ucrânia. Uma grande parte dos nossos fiéis provém desses lugares. Portanto, é necessário um olhar positivo entre nós, um olhar de perdão, um olhar de bondade para com o outro e isto não é possível sem uma proximidade, sem desejar uma relação com o irmão. Depois, há o aspecto da oração em família.

Também insistimos neste ponto no outono, antes do Advento. Já em setembro, propusemos uma peregrinação de um ícone da Mãe de Deus, a que demos o título de Mãe do Verbo, para as famílias de todas as paróquias da Rússia. E esta peregrinação de ícones está danos os frutos. Na verdade, muitas são as famílias que pedem para acolher o ícone, que normalmente permanece na família durante uma semana, e que está despertando uma oração comum, e também um grande espírito de acolhida. Em várias famílias, de fato, são convidados vizinhos, parentes e outros fiéis que se encontram no mesmo bairro, especialmente para rezarem juntos o terço, e as Litanias que, digamos, criámos para a ocasião. E tudo isto está fomentando um “contágio” que é mais forte do que o contágio da Covid.

O senhor falou de três áreas difíceis: Ucrânia, Belarus e Cáucaso, todas terras às quais o Papa também se refere frequentemente, tendo-as no seu coração e invocando a paz, o diálogo, a escuta do povo. O senhor tem contatos com essas comunidades? E qual é o seu desejo ou o seu apelo?

R. – O meu apelo é o mesmo que o do Santo Padre, à oração, à paz e também à caridade, porque as notícias que recebemos não são positivas, especialmente da Belarus onde o arcebispo de Minsk, Tadeusz Kondrusiewicz, ainda vive no exílio da sua própria terra e povo e, muito provavelmente, não poderá celebrar o Natal com a sua comunidade. Depois, sabemos de detenções de padres católicos, mas também de católicos gregos, ortodoxos e detenções de fiéis. Por isso, o nosso compromisso hoje é a oração. A este respeito, introduzimos neste período para a Belarus, como já tínhamos feito antes para a Ucrânia e depois para o Cáucaso, uma oração especial, a do Sub Tuum Praesidium, que se leva imediatamente após a Comunhão por todas as nossas paróquias e todas as nossas comunidades para invocar proteção especial para todo o povo da Belarus

FONTE: Vatican NEWS

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