O que é o amor

“O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente”. Portanto, à luz deste belíssimo pensamento do nosso Papa de saudosa memória, o agora São João Paulo II, podemos, mais uma vez, reafirmar o amor como vocação fundamental da pessoa humana, realidade que a constitui.

O ser ou não ser da pessoa implica em amar ou não amar. Se amamos, somos; se não amamos, não somos. Buscar compreender e viver o amor revela-se como uma tarefa fundamental na vida de quem quer viver em plenitude. Na vida do seguidor de Jesus Cristo, tal procura revela-se essencial, uma vez que a santidade implica, constitutivamente, em viver no amor tal como nos foi manifestado em Jesus Cristo. Ele próprio resumiu toda a lei no preceito de amar a Deus e ao próximo.

Na pessoa de Jesus Cristo descobrimos em que constitui o amor, sobretudo voltando o olhar para a Sua entrega total na cruz, particularmente para o Seu lado aberto, de onde jorraram sangue e água. Aqui encontramos a fonte do amor sem fim. Na verdade, o dinamismo da cruz foi o dinamismo que caracterizou toda a vida de Jesus. Ele não viveu para si, mas entendeu o Seu próprio ser, como nos afirma o Papa Bento XVI, como ser para os outros.

O amor é uma força centrífuga que nos faz sair de nós mesmos e abrir-nos ao outro. Implica sempre em um eu que se abre a um tu, formando assim a comunidade do nós. O eu que se dirige ao tu busca a felicidade deste, compraz-se em ver o outro feliz. O seu bem resulta no bem do outro. A relação amorosa é, dessa forma, caracterizada por uma cumplicidade mútua, na qual a felicidade do outro estará sempre em primeiro lugar. Portanto, no coração de quem ama, ao seu centro não está a própria pessoa, mas a pessoa amada. O outro não é um plus, mas realidade central, a partir da qual gira a própria vida.

Esse dinamismo é o que está impresso na Trindade Santíssima, que é assinalada por uma dinâmica de abertura. O Pai tudo cria e manifesta o Seu amor pelo homem através da criação; o Filho nos é enviado, vem até nós, faz-se um conosco; o Espírito também nos é enviado e habita em noss’alma, como num templo, como nos afirma o apóstolo (cf. 1Cor 3,16).

O bem que fazemos pelo outro é, assim, uma exigência do nosso ser, criado à imagem e semelhança de Deus. A nossa felicidade reside, em primeiro lugar, mais em dar do que em receber, de tal sorte que podemos dizer que o primeiro beneficiado de uma relação amorosa, não é quem é amado, mas quem ama. Portanto, não perdemos nada em amar, mesmo quando não recebemos o amor na mesma medida ou nem sequer somos correspondidos. Na verdade, esta é a verdadeira liberdade interior a que podemos chegar com a graça de Deus: a de nos sentirmos livres para o amor, independente do que façam conosco.