Misericórdia

A misericórdia é um dos atributos de Deus. Na verdade, ela O define. Deus é misericórdia! É, por isso que, em uma oração litúrgica, é dito que Ele manifesta o seu poder através da sua ação misericordiosa. O poder de Deus não se exprime, preferentemente, por ações prodigiosas, ou pelo uso da força, como comumente se manifesta o poder humano, mas pelo seu amor misericordioso.

 Esse amor, como afirma Papa Francisco, “é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro”. Deus sempre nos olha com misericórdia.  Por isso, continua o Papa, ela se torna o caminho que nos une a Deus, “porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.

 Essa gratuidade do amor de Deus, que se manifesta na sua misericórdia, constitui a razão fundamental do viver cristão.  Este é, essencialmente, puro dom antes de tudo. A vida cristã não é marcada pela “dinâmica comercial da fé” onde se barganha a salvação, alegando ações que nos fazem merecê-la. Na verdade, na história da nossa fé, vamos nos dando conta que mais recebemos do que damos. Há um abismo entre o que recebemos de Deus e o que podemos ofertar-Lhe ou corresponder-Lhe.

A misericórdia do Pai foi manifestada ao longo da história, como dinâmica própria do seu agir. O salmista canta, contemplando o caminho feito por Israel ao longo do tempo, dizendo reiteradamente: “Porque o seu amor é para sempre!” (Sl 118,1). Mas foi, sobretudo, na pessoa do Filho, Jesus Cristo, que a misericórdia alcançou o seu ápice. Jesus é o rosto misericordioso do Pai. Através do que disse e fez, quis manifestar, sobremaneira, que o amor de Deus acolhe o homem com tudo que ele é: luzes e sombras. 

A parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32) é uma das grandes expressões da grandeza do amor de Deus que se exprime na misericórdia. Já houve quem propusesse que ela se chamasse parábola do Pai misericordioso. Aqui encontramos um Deus que é acolhimento incondicional, faz festa e de novo coloca o anel do seu amor esponsal em nosso dedo. Seu amor, manifesta-se como um amor em expectativa, que aguarda o nosso retorno, que nos decidamos por Ele.

Contudo, é a cruz a expressão mais eloquente e magnânima do amor misericordioso de Deus. Nela, Ele acolhe o homem todo e todo homem. Não há fronteiras ou espaço para acepção de pessoas. Na cruz, Deus se faz miserável, assumindo a nossa miséria e ama-nos apesar dela. Ele mais do que voltar-Se para nós, abaixa-Se, para amar-nos lá onde nos encontramos.

Jesus nos convida a fazer um caminho de amor também marcado pela misericórdia: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Essa é a meta da nossa vida cristã, do coração que quer assemelhar-se ao coração de Jesus: viver a misericórdia.

Padre Pedro Moraes Brito Junior